editorial
ESTE BLOG quer ser
um afago na alma de tantos com saudade do que fazíamos quando crianças e jovens. O nome
Bairro Siqueira: meu Aribé prenuncia que será, como diria meu exagerado irmão Augusto, um corte com os próprios dentes no negro asfalto que agora cobre o rangido dos nossos passos nas piçarras de nossas antigas ruas. Será um corte na maquiagem das construções que vieram esconder os espaços onde nossa infância ainda mora; vieram soterrar nossos risos, brincadeiras, amores e brigas, juvenis.
Aqui não trataremos do que o bairro é agora. Nem do que será ou deveria ser. Nos reportaremos tão somente ao que foi: nomes de pessoas; o que havia ali e acolá. Será um momento de nostalgia saudável sem melancolia. E para os tantos anônimos que já se foram, o nosso gesto quer ser uma forma de reverência ao existir de cada um permanecendo em nosso ser.
Quem foi
Dona Almerinda?
Dona Adaltiva?
Seu Araújo e Dona Eduarda?
Dona Profira?
Seu Eunaldo Costa?
Seu Agnaldo?
Dona Mariana?
Seu João do Boi e Dona Dora?
E por aí vai. Dona Profira, por exemplo, morava na Vila de Seu Aurelino. Um de seus filhos, Ananias, até há pouco tempo vendia inhame, macaxeira... num carrinho de mão próximo ao Bom Preço.
Sei que vocês não sabem de quem estou falando. Mas foram existências hoje anônimas do Siqueira assim como outras que não conheci, mas estão em sua memória.
Aqui nos interessa a "alma" das coisas; a essência do que somos por trás de títulos, óculos de grau, rugas, necessidade de remédios. Iremos até a outra extremidade do tempo, que fez e faz o que somos, em busca da perspectiva no olhar de quem se maravilha com a possível imobilidade do tempo.
Portanto, como se vê, a prosa não será para qualquer um. Mas só para quem tenha na alma um incômodo chamado: SAUDADE.
S
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OMOS da família dos Marianos.
Não os Salmerons. Somos os que moravam ali na Rua Rio Grande do Sul; entre a Rua Sergipe e a Distrito Federal. Mais próximo a esta. Somos os filhos de Dona Mariana e de Santo Souza.
V
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OCÊ PODE NOS AJUDAR NESSE ESFORÇO partilhando vivencias, lembrança de nomes de pessoas e de como cada coisa era. Partilhe, se puder, imagens de época que porventura tenha em um álbum com fotos que captaram incidentalmente recorte de como nossas ruas eram. As imagens que possuímos são essas já postas. Poucas; quase nada. As de nossa casa, que aqui postamos, tanto a primeira quanto a segunda, foram reconstituídas de memória. A ideia é, quem sabe, reconstituirmos ao máximo possível o Siqueira que nossa geração conheceu. Quem só tem memória, descreva. O BLOG não será algo grandioso, mas será, sim, um cantinho do nosso peito ao alcance do seu.
VEREDAS DE MIM
M
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INHA ARACAJU tem duas ruas. A que nasce no ontem desde as matas; passa cercas aramadas por sobre dunas e entre cantos de bem-te-vis. Desemboca serena nos espelhos dos meus olhos onde lágrimas esgarçam as garças que voam desde o sol na Barra às sombras dos manguezais. A outra nasce no hoje, já torta. Perpassa gabinetes, Terras Duras, medos e fedentina. Vem desembocar na praça dos conchavos onde insepultos dois índios choram um canto escuro e de ventania que murmura dor ao ouvido da gente; depois, feito sombra, afaga a cabeleira dos velhos oitizeiros semienterrados no chão da Praça da Catedral. As veredas da minh’alma estão no chão desse Aracaju.
Chão de areia fofa e piçarra entre fileira de casas e de cercas nas ruas do Aribé que se foi, tão rico de mim. E restei eu, tão pobre, submerso num rio de risos secos, meu ontem ao avesso.
[...] No tempo das tanajuras cantávamos olhando pro céu: “Cai, cai, tanajura, na panela da gordura”. E elas caíam. Assim como as estrelas, na escuridão da noite. E que não podíamos contar para não nascer verruga no dedo.
[...] Lavacus escuros voavam sobre as valetas. Alguns, vermelhos; outros pequenos e azuis. E a triste brincadeira de capturá-los com visgo de jaca em palitos plantados na beira das valas cobertas por um limo verde e bolhoso. Mais verde que as gostosas goiabas do quintal de Seu Araújo e a copa dos altos coqueiros balançando ao vento nos outros quintais.
Havia pequenas bacias e pratos com cajaranas e carambolas à venda nas janelas das casas por onde eu passava com meus tamancos cantando na calçada indo estudar na casa de Dona Adaltiva. Também goiabas e fruta-pão. Pássaros lavadeiras voavam até a roseira na casa de uma senhorinha miúda e branca: Dona Cecília Barroso.
E chovia, chovia muito na minha infância. Uma chuva bonita que fazia soldadinhos nas poças e queda d’água das telhas, onde tomávamos banho até os dedos engelharem e os beiços ficarem roxos. As águas corriam até o bueiro em frente à bodega de Seu Oscar; e levava, sei lá pra onde, meus barquinhos de papel com marinheiros de cascas de amendoim. Nessa valeta pegávamos piabas barrigudas, e caborjes. E havia o cantar dos sapos; depois suas escumas; e os sapos-de-rabo subindo e descendo nos charcos e regos.
E meus periquitos sempre se enroscando nos fios. Meu chapeuzinho de soldado; e eu marchando: pan-pan, parará, pan-pan. Meu aviãozinho branco planando sobre os móveis. Tudo feito com folhas de algum caderno Companheiro.
O aluguel de bicicletas; e o sair pedalando com a perna por dentro do quadro. O jogo de bola na rua. A estranheza das ruas para além da nossa zona. As brigas. As carreiras. E a menina do outro trecho que passava com um diadema de florzinhas na testa, indo até a bodega de Seu Joãozinho comprar farinha ou sabão.
As garrafas de leite com tampas de alumínio deixadas no batente da porta por um leiteiro que passava de manhãzinha montado numa carroça. O fogo a carvão onde mamãe fazia o cuscuz que comíamos com salame, sardinha ou tripa de porco. O comprar carvão a um homem negro e alto na Rua Mariano Salmeron. As estórias contadas no rádio pelo Caboclo Jeremias. Aquela de Veludo, que se fez nó na minha garganta: seu dono o atirou ao mar em dia de tempestade para dele se livrar. Mas Veludo voltou trazendo nos dentes a corrente de ouro que o malvado deixara cair nas águas. Vindo o cão a morrer no batente da casa, com a boca espumando de tanto cansaço.
E a morte do menino Carlos Werneck por Laconga. O misterioso retrato do finado José Conrado de Araújo num quase torrado caroço de milho. E a voz onipresente do radialista Silva Lima no Informativo Cinzano. O ficar a ouvir as crônicas da cidade do meu pai na voz de Santo Santana.
As veredas da minha alma são feitas de medo.
Medo de almas translúcidas que vinham tocar-me o ombro depois de emergirem, sorrateiras, das estórias contadas por Ananias, lá na esquina de Seu Oscar. Medo das cipoadas quando brincávamos de cipozinho queimado, ou calçadinha do reino: “Tô roubando ouro. Tô roubando ouro”. Mas sempre terminando pobre. Pobre, pobre... de marré de si.
A goma feita com tapioca e água numa colher ao fogo. O vento levando minha arraia “la bamba” feita por Augusto, meu irmão, com papel manteiga. Meu grito ao perdê-la, e os gritos de um bando de meninos para pegá-la.
As águas escuras da Lagoa da Coceira. E as dunas brancas dos morros da Suissa, pouco distante da casa de tia Bezita, fazendo o horizonte da Bela Vista, na Baixa Fria. A brincadeira de escorregar nas dunas, onde homens com pás e caminhões retiravam areia. O cachorro Buíque e a cadela Diana latindo pra quem passava. Nosso cachorro Rodes, peludo, preto e branco; tão manso que eu fazia dele cavalinho. Nunca mais outro tão lindo.
E as maçarandubas vermelhas roubadas nos sítios pros lados do hoje Castelo Branco e Ponto Novo. Os cajus amarelos e os manjelões roxos no sítio de Seu Abrão. E o ruído dos rolimãs riscando a comprida calçada de Seu Joãozinho, suas ameaças, seus palavrões. As marcas de terra, suja de merda e de urina, quando jogava marralho com gastas bolas de vidro na Vila de Seu Orelino. Depois o caminhar capengando com uma pereba no joelho. Meu calção de listas quase vermelhas e brancas, com cordão elástico.
Os urubus voando em círculos. E as nuvens galopando no prado azul do céu. E o vento. O vento em meus pés quando de ponta-cabeça virava maria-esconbona por detrás do gol de camisas no campo da Fratelli Vita.
O pássaro pousado na cerca ainda hoje me diz, insistente, que bem me viu.
Pássaro da minha infância:
bem-te-vi.
Bem te vi
assim
sol a pino
pelas cercas do caminho.
“Bem te vi; bem te vi”.
As veredas da minha alma são feitas de muros; que eu pulava para buscar uma bola Pelé, ou a japonesa que um colega malvado jogara no jardim de alguma casa.
As veredas da minha alma são feitas, também, de murros levados nas costas dados por Zé da Porra ou Carlinhos, irmão de Ananias, brincando de garrafão. De goles d’água na Xoxota da Véia, ali à beira da linha férrea por onde o trem passava, terrível, soltando fumaça, tremendo terra, e apitando: tiuí. E o bafo negro e quente dessa maria-fumaça ao passar sob a ponte da Leste na Feirinha das Oficinas.
E o circo de lona furada, onde à tarde o palhaço com pernas de pau marcava a mão de quem mais gritava ao dizer: “Arrocha negrada”. E todos: “Ê-Ê-Ê-Ê”. E o mata-cachorro, besta, que quase ninguém pegava. A rumbeira loura de biquíni azul com lantejoulas, quando, obscena punha a mão na genitália, e todos cantavam: “Ôi, dona, que bichinho é esse? É a barata. Pois pega o chinelo e mata”.
A troca de revistas (Zorro, Capitão Sete, Cavaleiro Negro, Flecha Ligeira) na porta do cine Vera Cruz onde Seu Nelsinho, esguio bilheteiro, com um curativo na fronte, tentava se esconder da morte que vinha se aninhando lenta em sua alma clara de olhos azuis.
Os filmes de Tarzan, Hércules e de Macister. E as xingas nas matinês quando alguém ousava abrir a porta ao lado para fazer xixi. As profundas badaladas de um gongo antes de começar o filme; e os meninos gritando para assustar o condor, e fazê-lo voar. O rugido do leão da Metro. Os freqüentes cortes nas cenas de beijo.
[...] Minha calça da farda do Colégio Sr. do Bonfim, na rua Goiás, hoje Carlos Correia, mais de três vezes remendada no fundilho. A merenda escolar que eu comia envergonhado, feita com pão e ovo, enrolada em papel de embrulho. Meu sapato de plástico, malcheiroso. Minha primeira camisa volta ao mundo, azul.
As veredas da minha alma são feitas pelos gritos dos meninos (Ê, ê, ê, ê...) quando a luz voltava e nos encontrava ainda mirando estrelas, de costas pro chão na calçada. (Lá o Cruzeiro do Sul; ali as Três Marias). E pelo estrimilique no meio das costas quando urinava nos muros, e nos postes cinzentos, ao relento, olhando pra um lado e outro pra ver se vinha mulher.
[...] As bacias em cima das fogueiras. O corredor polonês dessas fogueiras acesas por toda a rua; o nevoado de fumaça branca por todo o universo; o constante pipocar de traques; os espanta-coiós estalando depois de raspá-los no cimento da calçada; os mastros de cana, ou de bananeira, na casa de cada Dona Maria. E os foguetes de lágrima, depois de solitário estouro, no fim das frias noites de São João.
Guardo na mente o zunido das bicicletas no carnaval, o apito nos canos de descarga dos carros, e o medo de Dona Véia vestida de Cão. O apito do carrossel de Tobias, nos natais. O grito das mocinhas na descida da onda; ou quando a loura Tathiana se transformava em monstro. Um gato de gesso, malhado, brincando com uma bola vermelha sobre a banqueta lá de casa. E outros três gansinhos de gesso, voando em fila, na parede da sala de Dona Jovita.
A contagem de chapas brancas nos carros. O dinheiro de carteira de cigarros (Minister, Gaivota, Continental, Astória) com que se pagavam apostas. As pungas nos caminhões lentos, e a passagem da bonita marinete Diana, verde e branca, indo pro Centro. Depois vieram as kombis. As pipocas Lírio do Vale. O geladíssimo Coel num cone de branco papel. O tinguilingue do cavaco chinês. O realejo do quebra queixo. O “Ói eu: ui, ui, ui, ui” com seu mungunzá quente num carrinho de mão. Os beijus molhados de uma neguinha bonita.
As brincadeiras de pembarra. O jogo de castanha em calhas d’água, ou com tampinhas de garrafa. O jogo de barrufo com figurinhas Chiclete-Bola, e da copa meia dois. O jogo com bola de pano, marreta, pegando relances. Uma estampa Eucalol dentro de um livro Admissão ao Ginásio. Meu furão certeiro, tirando ponto. Meu pião que eu nunca bem rodei. Meu cadilac de madeira, com molas de arco de barril. E as bolinhas de sabão sopradas com talo de mamoneira, flutuando ao léu, assim como a vida. As guerras de baleadeira com os frutos da mamoneira. As corridas de pega-ladrão...
E o vento da tarde varrendo tudo, varrendo todos os meus dias. As veredas da minha alma são feitas de ventos. E de Aracajus. Muitos Aracajus soterrados uns sobre os outros. E sob a cruz que faço de mim com meus braços abertos tentando voar, menino doido, sem saber que não há mais outro mundo de algodão tão doce.
Tão doce.
E o vento da tarde varrendo tudo, varrendo todos os meus dias. As veredas da minha alma são feitas de ventos. E de Aracajus. Muitos Aracajus soterrados uns sobre os outros. E sob a cruz que faço de mim com meus braços abertos tentando voar, menino doido, sem saber que não há mais outro mundo de algodão tão doce.
Tão doce.
do livro
Uni-
Versos Di-
Versos
Ivo Mariano

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