Era uma vez...
São algumas das histórias contadas nas nossas calçadas.
As versões devem ser muitas. Mudam de acordo com cada grupo familiar assim como as regiões. Mas há também o fator memória e criatividade de quem as contava.
No entanto, o núcleo certamente está preservado em todas.
Qual a sua versão?
O cantor Belchior, por exemplo, em uma de suas músicas usou os tristes versos da estória "Capineiro do meu pai" abaixo. Vai aqui como a conheci.
-1-
Capineiro do meu pai
E
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ra um vez... uma menina que tinha cabelos muito bonitos, longos e louros. Quando sua mãe era viva penteava e cuidava deles como se fossem fios de ouro. Mas um dia a mãe morreu e o pai ficou viúvo. Perto de onde eles moravam havia uma "Dona" que tinha inveja da menina, mas queria casar com o pai dela. Por isso fazia muitos agrados à menina. E tanto fez que um dia a menina disse ao pai:
- Pai, por que o senhor não se casa com nossa vizinha? Ela é muito boa. Todos os dias quando vou para a casa dela ela me dá bolo com mel.
- Minha filha, disse o pai, se ela se casar comigo depois vai lhe dá é bolo com fel.
A menina não acreditava. E a vizinha tanto lhe fazia agrados que a menina insistiu, insistiu, até que o pai acabou casando com a dita. Logo depois do casamento a madrasta, que tinha muita inveja dos cabelos da menina, começou a maltratá-la.
No quintal da casa havia uma grande figueira e um capinzal. A madrasta gostava muito de figos. Por isso sempre que o pai da menina saia para trabalhar ela mandava a menina ficar a tanger os passarinhos para que não comessem nem um figo; pois todos eram só para ela. Bastava um passarinho comer um e a madrasta logo saía a castigar a menina.
Um dia o pai da menina viajou. Aí a madrasta fez mais malvadezas. E tão triste a menina ficou que terminou se distraindo e deixou que os passarinhos comessem todos os figos. A madrasta então foi tomada de tão grande raiva que cavou um buraco no jardim, onde tinha o capinzal, e enterrou a menina viva. Quando o pai da menina chegou e perguntou por ela a madrasta, bem disfarçada, disse que não sabia, que ela tinha desaparecido. O pai ficou triste, muito triste, e saiu a procurá-la. Procurou, procurou e não achou. Os dias se passavam e nada da filha voltar. Um dia o pai viu que o capim do quintal estava muito grande e mandou o capineiro cortar. Quando o capineiro passou a foice no capim ouviu um canto bem triste que dizia:
Capineiro do meu pai,
não me corte meus cabelos.
Minha mãe me penteou.
A madrasta me enterrou,
pelos figos da figueira.
Xô xô passarinho bicou.
Xô xô passarinho bicou.
O capineiro correu assustado para dizer ao pai da menina.
Os dois foram ao capinzal e o pai da menina mandou que ele de novo passasse a foice. E ouviu o mesmo triste canto:
Capineiro do meu pai,
não me corte meus cabelos.
Minha mãe me penteou.
Minha madrasta me enterrou,
pelos figos da figueira.
Xô xô passarinho bicou.
Xô xô passarinho bicou.
O pai conhecendo a voz disse: é minha filha. E começaram ligeiro a cavar a terra e encontraram a menina ainda viva. Então levou a menina para dentro de casa e botou a madrasta para correr de porta a fora.
Entrou pela perna do pinto
saiu pela do pato.
O rei mandou dizer
pra contar mais quatro.
-2-
Macaco tire o rabo
E
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ra uma vez... um macaco muito ardiloso que queria casar, mas não tinha com quem. Ficou a pensar.
Então viu um homem que vinha montado numa carroça e teve uma ideia: colocou o rabo atravessado na estrada. O homem veio e disse:
Então viu um homem que vinha montado numa carroça e teve uma ideia: colocou o rabo atravessado na estrada. O homem veio e disse:
- Macaco, tire o rabo.
E o macaco:
- Tiro não. Pode passar.
O homem:
- Macaco, tire o rabo
E o macaco:
- Pode passar.
O homem passou com a carroça sobre o rabo do macaco e o torou. Aí o macaco começou a gritar:
- Ai, ai, ai. Quero meu rabo. Ai, ai, ai. Quero meu rabo...
O homem discutiu. Disse que tinha avisado. Mas o macaco não queria nem saber. Só gritava e chorava:
- Ai, ai, ai; quero meu rabo. Ai, ai, ai; quero meu rabo...
Tanto foi o fuzuê que o homem resolveu negociar:
- Bom, seu rabo não posso consertar. Mas tenho um canivete.
O macaco disse:
- Dê pra cá.
E saiu alegre cantando:
- Do meu rabo ganhei um canivete. Do meu rabo ganhei um canivete...
Mais adiante o macaco viu um homem a fazer cestos. Cortavas os cipós com os dentes. O macaco chegou todo manhoso e disse.
- Moço, desse jeito o senhor vai estragar seus dentes. Tome meu canivete.
O homem olhou desconfiado, e respondeu:
- Quero não. Vá que quebre.
O macaco:
- Que nada. Desse jeito o que vai quebrar são seus dentes.
E tanto insistiu que o homem disse:
- Dê pra cá.
E começou a cortar os cipós com o canivete. Não demorou muito, pá, o canivete quebrou. Aí o macaco arregalou os olhos e começou:
- Quero meu canivete. Quero meu canivete...
A mesma lamúria sem fim. O homem se irritou; disse que foi ele quem insistiu... Mas não tinha jeito:
- Quero meu canivete. Quero meu canivete...
O homem então disse:
- Bom, canivete não tenho. Dou-lhe um cesto. Quer?
O macaco saiu satisfeito cantando:
- Do meu rabo ganhei um canivete. Do canivete ganhei um cesto...
Mais adiante, pela janela de uma casa viu que uma mulher fazia pão. Tirava os pães quentes; colocava no avental; e de tão quentes, o avental pegava fogo. O macaco disse:
- Senhora, tome meu cesto para por os pães.
A mulher respondeu:
- Não, os pães estão muito quentes vão queimar seu cesto.
- Que nada, respondeu o macaco. Deixe de ser boba, tome meu cesto.
E tanto insistiu que a mulher aceitou. Mas nos primeiros pães que botou o cesto pegou fogo. De novo o macaco começou sua lamúria:
- Que nada, respondeu o macaco. Deixe de ser boba, tome meu cesto.
E tanto insistiu que a mulher aceitou. Mas nos primeiros pães que botou o cesto pegou fogo. De novo o macaco começou sua lamúria:
- Ai, ai, ai, meu cesto, meu cestinho. Ai, ai, ai...
E a mulher:
- Eu não disse. Você foi quem quis.
Mas não adiantava. O macaco só chorava. Então a mulher disse:
- Que vou fazer? Só tenho pão.
E o macaco:
- Dê pra cá os pães.
Pegou os pães e seguiu pela estrada cantando:
- Do meu rabo ganhei um canivete. Do canivete ganhei um cesto. Do cesto ganhei muitos pães...
Mais adiante viu uma festa. Era aniversário de uma moça. Mas notou que os donos da casa estavam tristes pois toda a comida havia acabado e eles passavam vergonha. O macaco então disse:
- Veja, eu tenho aqui muitos pães.
O homem respondeu:
- Mas não é justo. A festa nem é sua.
O macaco insistiu, insistiu, até que a moça disse:
- Vá, pai. Aceite.
O homem aceitou. Todo mundo comeu. Quando acabou os pães o macaco fez aquela cara:
- Meus pães...
E tanto fez, tanto disse, tanto foi o vexame fazendo cobrança na frente dos convidados que os pais da moça lhe disse:
- O que você quer?
O macaco respondeu:
- Quero casar com sua filha.
O homem estava com tanta raiva, porque foi ela que o fez aceitar os pães, que respondeu:
- Então leve.
E aí o macaco saiu cantando:
- Do meu rabo ganhei um canivete. Do canivete ganhei um cesto. Do cesto ganhei muitos pães. Dos pães ganhei uma moça...
E tingue lingue lingue, macaquinho foi embora.
Tingue lingue lingue macaquinho foi embora...
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